

Basta uma trilha sonora silenciosa, um corredor escuro ou um personagem surgindo inesperadamente na tela para que o coração acelere. Mesmo sabendo que tudo faz parte de um filme, o organismo reage como se estivesse diante de uma situação real de perigo. Essa sensação é bastante comum entre os fãs de suspense e terror, mas afinal: assistir a esse tipo de produção faz mal para o coração?
Segundo especialistas, a resposta é, na maioria dos casos, não. Embora o corpo passe por alterações fisiológicas importantes durante cenas de tensão, essas mudanças fazem parte de um mecanismo natural de sobrevivência e, em pessoas saudáveis, desaparecem poucos minutos após o fim do estímulo.
Durante um filme de terror, o cérebro interpreta determinados sons, imagens e movimentos como sinais de ameaça.
Mesmo sabendo racionalmente que a situação é fictícia, regiões cerebrais responsáveis pelas emoções e pela sobrevivência entram em ação antes que a parte racional consiga "lembrar" que tudo acontece apenas na televisão ou no cinema.
Esse mecanismo ativa a chamada resposta de "luta ou fuga", desenvolvida ao longo da evolução humana para preparar o organismo diante de situações consideradas perigosas.
O cardiologista Gustavo Lenci explica que essa reação é totalmente esperada.
"Quando assistimos a um filme de suspense ou terror, o organismo faz uma descarga de adrenalina. É um reflexo natural do corpo. Essa resposta pode acelerar temporariamente os batimentos cardíacos e aumentar o estado de alerta, mas não representa um risco para o coração. Não é um estresse intenso e prolongado capaz de provocar um problema cardíaco em pessoas saudáveis."
A liberação de adrenalina provoca diversas alterações quase instantâneas no organismo.
Entre as principais reações estão:
Essas mudanças têm como objetivo preparar o corpo para reagir rapidamente diante de uma ameaça.
Embora hoje o "perigo" possa ser apenas um personagem fictício aparecendo na tela, o organismo continua utilizando exatamente o mesmo mecanismo que ajudou os seres humanos a sobreviverem ao longo da evolução.
De acordo com especialistas, pessoas sem doenças cardiovasculares costumam passar por essas alterações sem qualquer consequência para a saúde.
A aceleração dos batimentos é temporária e tende a desaparecer logo após o fim da cena de maior tensão.
O coração retorna naturalmente ao ritmo habitual poucos minutos depois, sem provocar danos ao organismo.
Por isso, assistir a filmes de terror ou suspense não costuma representar um problema para indivíduos saudáveis.
Durante discussões sobre emoções intensas, muitas pessoas lembram da Síndrome de Takotsubo, popularmente conhecida como síndrome do coração partido.
Essa condição provoca alterações temporárias no funcionamento do músculo cardíaco e geralmente está associada a situações de forte impacto emocional, como a perda de um ente querido, acidentes graves, tragédias ou acontecimentos extremamente marcantes.
Segundo Gustavo Lenci, não há relação entre esse quadro e o simples hábito de assistir a filmes de terror.
"O coração partido costuma estar relacionado a acontecimentos marcantes da vida, como a perda de um familiar, uma tragédia ou até uma alegria muito intensa. Eu nunca vi relatos desse problema provocado simplesmente por assistir a um filme de suspense ou terror", afirma o especialista.
Curiosamente, a mesma adrenalina que provoca tensão também ajuda a explicar por que tantas pessoas gostam de filmes de terror.
Como o cérebro sabe que o ambiente é seguro, ele permite que o organismo experimente pequenas doses de medo sem que exista um risco real.
Essa combinação entre emoção intensa e sensação de segurança ativa áreas cerebrais ligadas ao prazer, fazendo com que muitas pessoas associem o suspense à diversão.
Para os fãs do gênero, cada susto representa uma descarga controlada de adrenalina, semelhante ao que acontece em brinquedos radicais, montanhas-russas e esportes de aventura.
Embora filmes de terror não representem risco para a maioria das pessoas, indivíduos com doenças cardíacas já diagnosticadas, arritmias importantes ou problemas cardiovasculares graves devem seguir as orientações do médico responsável pelo tratamento.
Em situações de emoções muito intensas, esses pacientes podem apresentar respostas cardiovasculares mais acentuadas e, por isso, merecem acompanhamento individualizado.
Ainda assim, especialistas ressaltam que o maior fator de risco para doenças do coração continua sendo hábitos como sedentarismo, tabagismo, hipertensão, diabetes, obesidade, colesterol elevado e alimentação inadequada — e não assistir a filmes de suspense.
No fim das contas, a aceleração do coração provocada por um bom filme de terror faz parte do funcionamento normal do organismo.
Enquanto o cérebro reconhece que tudo é ficção, o corpo experimenta por alguns instantes uma resposta ancestral de sobrevivência, marcada pela liberação de adrenalina e pelo aumento do estado de alerta.
Para quem está com a saúde em dia, essa reação costuma durar apenas alguns minutos e termina junto com o susto, mostrando que, apesar da sensação intensa, o maior perigo continua sendo apenas o personagem que aparece na tela.
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