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Obesidade infantil causa danos vasculares precoces, indica estudo com crianças paulistas

Investigação realizada com 130 participantes entre 6 e 11 anos mostrou que inflamação associada à obesidade e sobrepeso afeta funcionamento do endo...

16/02/2026 às 21h01
Por: Admin Fonte: Secom SP
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Obesidade infantil causa danos vasculares precoces, indica estudo com crianças paulistas

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 130 crianças entre 6 e 11 anos identificou que a obesidade pode causar, por si só, danos imediatos à saúde cardiovascular infantil, aumentando o risco de doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC) já na infância.

O trabalho, apoiado pela FAPESP (processos 21/14313-7 e 22/09352-6 ), identificou sinais precoces de inflamação e disfunção no endotélio – camada que reveste os vasos sanguíneos – em crianças com sobrepeso e obesidade.

“Os resultados do estudo reforçam a gravidade da obesidade infantil, mostrando que ela precisa ser revertida desde cedo. Alertamos também sobre a necessidade de políticas públicas para a redução da obesidade na infância, sobretudo em populações em vulnerabilidade socioeconômica”, afirma Maria do Carmo Pinho Franco, professora da Unifesp e autora do estudo publicado no International Journal of Obesity.

A pesquisadora explica que a obesidade promove – em adultos e crianças – uma inflamação crônica e de baixo grau que deixa o sistema de defesa do organismo em constante alerta, gerando uma sucessão de falsos alarmes e, por consequência, o envelhecimento prematuro das células imunes. No endotélio, o foco do estudo, os pesquisadores identificaram que esse processo inflamatório provoca dano celular, mesmo em crianças, o que aumenta a gravidade da obesidade infantil.

“Já era sabido que crianças com sobrepeso ou obesidade tendem a se tornar adolescentes e adultos com o mesmo problema, o que aumenta o risco de desenvolver doenças cardiovasculares e cardiometabólicas no futuro. Mas esse efeito não é apenas cumulativo. O estudo identificou que as crianças com sobrepeso ou obesidade já apresentam sinais de inflamação e disfunção endotelial, indicando que o processo de adoecimento cardiovascular começa já na infância, mesmo antes de outros fatores de risco aparecerem”, diz Franco.

“Essas crianças não fumam, não bebem e não têm décadas de maus hábitos considerados fatores de risco para doenças cardiovasculares. Trata-se também de uma população pré-púbere, ou seja, sem a influência de hormônios sexuais. O único fator presente é o excesso de peso. Portanto, a análise mostrou que a obesidade, por si só, é suficiente para iniciar um processo inflamatório crônico de baixo grau, com impacto direto na saúde vascular”, completa.

No trabalho, os pesquisadores encontraram elevação na expressão gênica da citocina inflamatória TNF-alfa em amostras de sangue das crianças com sobrepeso ou obesidade, além de um aumento dos níveis circulantes de micropartículas endoteliais (EMPs, na sigla em inglês) apoptóticas – os dois marcadores inflamatórios podem indicar dano à célula endotelial, contribuindo para um quadro de disfunção no tecido. Franco explica que, como o endotélio é considerado o orquestrador da saúde vascular, a lesão precoce nos vasos sanguíneos detectada no exame das crianças pode levar a doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

A pesquisa também mediu indicadores como índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura, pressão arterial e função endotelial da microvasculatura. Crianças com sobrepeso e obesidade apresentaram pior desempenho no Índice de Hiperemia Reativa (RHI, na sigla em inglês), que avalia a saúde dos microvasos, além de maior expressão do gene TNF-alfa, fator que se correlacionou com os níveis elevados de EMPs e a piora da função endotelial.

Outro aspecto importante do estudo é que ele foi conduzido com crianças atendidas em um Centro da Juventude na capital paulista. A avaliação do IMC, circunferência da cintura, pressão arterial e tonometria arterial periférica foi realizada no próprio local, com apoio de nutricionistas, médicos e enfermeiros voluntários.

As análises laboratoriais, incluindo extração de RNA e quantificação de marcadores inflamatórios por PCR (qRT-PCR), foram feitas no Departamento de Biofísica da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp).

Também foi feito um trabalho de conscientização e treinamento com merendeiras e responsáveis em que foram ensinadas receitas que substituíssem o uso de ultraprocessados no cardápio de crianças, priorizando alimentos saudáveis.

Os pesquisadores defendem a necessidade urgente de ampliar e fortalecer políticas públicas para prevenir a obesidade infantil, especialmente em comunidades com vulnerabilidade socioeconômica. “Além de todo o problema de cunho individual, sem a intervenção precoce essas crianças tendem a se tornar adultos com doenças cardiovasculares e metabólicas, o que representa um impacto preocupante para a saúde pública e para a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro”, alerta Franco.

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