O relacionamento entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, atravessa um dos momentos mais turbulentos da história recente da política econômica americana. Em seu segundo mandato, Trump voltou a usar o cargo para pressionar publicamente o chefe do banco central, criticando duramente a condução da política monetária e a manutenção das taxas de juros.
Desde o início de 2025, Trump vem acusando Powell de prejudicar o crescimento da economia ao manter os juros em patamares considerados elevados. Em março, o presidente afirmou que o país estaria “muito melhor” se o Fed reduzisse as taxas. No mês seguinte, durante o chamado “Dia da Libertação”, defendeu que cortes nos juros seriam fundamentais para enfrentar os impactos das novas tarifas de importação.
Em maio, durante um encontro presencial na Casa Branca, Trump disse diretamente a Powell que ele estava cometendo um “erro” ao não reduzir os juros. A resposta do presidente do Fed foi imediata e institucional: reforçou que as decisões do banco central são baseadas exclusivamente em dados econômicos e que a atuação da entidade é protegida por lei contra interferências políticas.
A partir de junho, os ataques se intensificaram nas redes sociais. Trump passou a chamar Powell de “burro”, “teimoso” e “estúpido”, sugerindo inclusive que o Congresso deveria agir para removê-lo do cargo. Em audiência no Congresso, Powell evitou entrar em polêmica pessoal e afirmou que não havia pressa para reduzir os juros diante das incertezas inflacionárias.
No segundo semestre de 2025, a escalada verbal continuou. Trump classificou Powell como “chefe incompetente do Fed” e afirmou que ele deixaria o cargo em poucos meses. Em novembro, a Casa Branca voltou a criticá-lo publicamente, chamando-o de “mula de teimosia” por resistir às pressões por cortes na taxa básica.
O conflito atingiu um novo patamar em janeiro de 2026, quando o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) abriu uma investigação criminal contra Jerome Powell, por suposta má administração e declarações falsas ao Congresso relacionadas a reformas em prédios do Fed. Embora Trump tenha negado envolvimento direto, voltou a atacar o presidente do banco central, afirmando que ele “não é muito bom no Fed e nem na construção de edifícios”.
Powell reagiu em vídeo, acusando o governo de usar a investigação como forma de intimidação política. Segundo ele, a abertura do inquérito seria uma tentativa de pressionar o Fed a agir conforme os interesses do Executivo, e não com base no interesse público.
A crise se aprofundou no fim de janeiro, quando o Fed decidiu manter os juros entre 3,50% e 3,75%. Trump voltou a atacar, chamando Powell de “idiota” e afirmando que ele estaria “prejudicando o país e a segurança nacional”, além de custar “centenas de bilhões de dólares por ano” em juros desnecessários.
A disputa expõe uma tensão inédita entre a presidência dos Estados Unidos e o banco central, colocando em debate a independência do Fed e o impacto político sobre decisões econômicas que afetam não apenas o mercado americano, mas toda a economia global.