

Uma vacina experimental desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e Merck apresentou resultados promissores no tratamento do melanoma, uma das formas mais agressivas de câncer de pele. Segundo dados divulgados nesta quinta-feira, 22 de outubro, a combinação da tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) com um medicamento de imunoterapia reduziu em 42% o risco de retorno da doença ou morte, em comparação com o uso isolado da imunoterapia.
Os resultados fazem parte do estudo internacional INTerpath-001, que reuniu 1.137 pacientes com melanoma de alto risco, previamente submetidos à retirada cirúrgica do tumor.
A pesquisa representa um avanço importante na investigação de tratamentos personalizados contra o câncer, embora a vacina ainda não esteja aprovada para utilização rotineira.
Diferentemente das vacinas tradicionais, utilizadas para prevenir determinadas doenças infecciosas, a tecnologia experimental foi desenvolvida para ajudar o organismo a combater um câncer já diagnosticado.
O tratamento, chamado intismeran autogene, é produzido individualmente a partir das características genéticas do tumor de cada paciente.
Após a análise de uma amostra tumoral, os pesquisadores identificam mutações que distinguem as células cancerígenas das células saudáveis.
Essas informações são utilizadas na fabricação de uma vacina de RNA mensageiro capaz de orientar o sistema imunológico a reconhecer proteínas associadas ao câncer.
A intenção é estimular as defesas do organismo a identificar e combater células tumorais que possam ter permanecido após a cirurgia, reduzindo o risco de recorrência.
No estudo, a vacina foi associada ao pembrolizumabe, medicamento comercializado como Keytruda.
O pembrolizumabe atua bloqueando mecanismos utilizados por células cancerígenas para escapar da resposta imunológica.
Ao combinar as duas tecnologias, os pesquisadores buscaram aumentar a capacidade do sistema imunológico de identificar e combater possíveis células residuais do melanoma.
Os participantes foram distribuídos em grupos que receberam o tratamento combinado ou a imunoterapia acompanhada de placebo.
A vacinação experimental foi administrada em até nove doses, com intervalos de aproximadamente três semanas.
Após dois anos de acompanhamento, 82,2% dos pacientes que receberam a vacina combinada à imunoterapia estavam vivos e sem retorno identificado da doença.
Entre os participantes tratados com imunoterapia isolada, esse percentual foi de 70%.
A análise estatística apontou redução relativa de 42% no risco de recorrência ou morte durante o período avaliado.
É importante destacar que esse resultado não significa que a vacina cure 42% dos pacientes nem que reduza isoladamente a mortalidade nessa proporção.
O indicador reúne dois possíveis acontecimentos: o retorno do câncer e a morte.
Os dados específicos de sobrevida global ainda precisam de acompanhamento mais prolongado.
Outro resultado relevante foi a diminuição de 38% no risco combinado de surgimento de metástases distantes ou morte.
A disseminação do melanoma para outros órgãos representa uma das principais preocupações no acompanhamento de pacientes com doença de alto risco.
Segundo os pesquisadores, a combinação experimental apresentou resultados superiores aos observados com a imunoterapia isolada.
Os achados serão apresentados no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), realizado em Madri, na Espanha.
Os dados também foram aceitos para publicação no periódico científico The New England Journal of Medicine.
Apesar dos resultados positivos, o tratamento permanece experimental.
A Moderna e a Merck trabalham na preparação de pedidos de aprovação regulatória, inicialmente nos Estados Unidos.
As empresas estudam a possibilidade de disponibilização a partir de 2027, mas isso dependerá da avaliação das autoridades sanitárias.
No Brasil, uma eventual utilização comercial também exigiria autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A tecnologia não substitui, neste momento, as opções de tratamento já estabelecidas para o melanoma.
O desenvolvimento de vacinas individualizadas representa uma estratégia diferente das abordagens tradicionais, pois considera características específicas do tumor de cada paciente.
O processo exige análise genética, seleção dos alvos e produção de um produto personalizado.
Essa complexidade também traz desafios relacionados ao custo, à disponibilidade e ao tempo necessário para fabricação.
As empresas investigam tecnologias semelhantes para outros tipos de câncer, mas ainda não é possível afirmar que os resultados observados no melanoma serão reproduzidos em outras doenças.
Os resultados divulgados em outubro de 2026 representam uma etapa importante no desenvolvimento de vacinas terapêuticas contra o câncer.
A redução do risco de recorrência ou morte, associada à maior proporção de pacientes livres da doença após dois anos, indica que a combinação poderá ampliar as alternativas de tratamento do melanoma.
Entretanto, a aprovação e a utilização clínica dependerão da avaliação completa dos dados de eficácia e segurança.
A pesquisa reforça o potencial da tecnologia de RNA mensageiro na oncologia e abre perspectivas para novos tratamentos personalizados.
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