A necessidade de controlar todos os aspectos da vida — do trabalho às finanças, passando pelos relacionamentos e pelas decisões do dia a dia — pode estar diretamente ligada ao aumento da ansiedade. Especialistas em saúde mental alertam que a tentativa permanente de prever problemas e eliminar qualquer tipo de incerteza mantém o cérebro em um estado contínuo de vigilância, favorecendo o desgaste emocional e reduzindo a capacidade de adaptação diante dos imprevistos.
O tema ganha ainda mais relevância em um momento em que a saúde mental permanece entre as principais preocupações dos brasileiros. Dados da quarta edição do Panorama da Saúde Mental, desenvolvida pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, apontam piora nos indicadores relacionados ao foco, à concentração e ao bem-estar emocional da população.
Segundo a treinadora mental, psicanalista e pesquisadora em Neurociências e reprogramação mental Elainne Ourives, o excesso de controle costuma funcionar como um mecanismo de defesa diante da insegurança.
"O excesso de controle nasce da crença de que só estaremos seguros se conseguirmos prever tudo. Mas a vida não funciona dessa forma. Quanto mais a pessoa tenta controlar o futuro, mais alimenta a ansiedade no presente. O cérebro permanece em estado de vigilância contínua, como se um perigo estivesse prestes a acontecer."
De acordo com a especialista, planejar faz parte da rotina e é saudável. O problema surge quando a necessidade de controle passa a dominar o comportamento e interfere na qualidade de vida.
Entre os sinais mais comuns estão:
Segundo Elainne, esse padrão faz com que o cérebro permaneça concentrado em ameaças futuras, reduzindo a criatividade, a flexibilidade e a capacidade de resolver problemas de maneira equilibrada.
"O controle deixa de proteger quando passa a consumir energia mental o tempo todo. A pessoa acredita que está evitando problemas, mas, na prática, está alimentando um estado permanente de vigilância."
Outro efeito frequente do excesso de controle é a dificuldade para tomar decisões.
O medo de errar, de fazer a escolha inadequada ou de perder oportunidades faz com que muitas pessoas permaneçam analisando possibilidades sem conseguir agir.
Segundo a pesquisadora, esse comportamento está frequentemente associado ao perfeccionismo.
"O perfeccionismo e o excesso de controle caminham juntos. A pessoa acredita que precisa encontrar a decisão perfeita antes de agir. Na prática, isso gera procrastinação, desgaste emocional e sensação constante de insuficiência."
Ela ressalta que o problema também é comum entre empresários, gestores e profissionais que ocupam cargos de liderança, justamente por associarem controle absoluto à competência.
Para fortalecer a saúde mental, a especialista recomenda substituir a necessidade de controlar tudo por uma postura mais flexível diante das situações da vida.
Entre as práticas sugeridas estão:
"Saúde mental não significa viver sem imprevistos. Significa desenvolver inteligência emocional para lidar com aquilo que não pode ser controlado. Quando a pessoa reduz a ansiedade antecipatória, consegue tomar decisões com mais clareza, equilíbrio e flexibilidade", conclui Elainne Ourives.
Especialistas reforçam que buscar apoio psicológico sempre que a ansiedade começar a comprometer a rotina, os relacionamentos ou a qualidade de vida é fundamental. Reconhecer que nem tudo pode ser controlado não representa falta de preparo, mas sim um passo importante para construir uma relação mais saudável com os desafios do dia a dia.