Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, indicou que a cannabis medicinal pode auxiliar no tratamento do Alzheimer em pessoas idosas, contribuindo para a melhora da memória e para a desaceleração do avanço da doença.
A pesquisa, publicada em 2025, foi realizada com 28 voluntários entre 60 e 80 anos diagnosticados com Alzheimer moderado. Durante cerca de seis meses, 14 pacientes receberam um extrato de cannabis com 0,350 miligrama de tetraidrocanabinol (THC) e 0,245 miligrama de canabidiol (CBD), enquanto os outros 14 utilizaram placebo.
De acordo com os pesquisadores, os pacientes tratados com os compostos da cannabis apresentaram redução significativa dos sintomas, evolução mais lenta da doença e melhor desempenho em testes de memória e cognição. Já o grupo que recebeu placebo seguiu o declínio natural característico do Alzheimer ao longo do tempo.
Segundo os cientistas, este é o primeiro ensaio clínico no mundo a demonstrar, de forma controlada, que os canabinóides são eficazes na melhora da memória em pacientes com Alzheimer. O estudo foi conduzido no modelo duplo-cego, randomizado e com placebo — metodologia considerada padrão-ouro na pesquisa clínica, pois impede vieses tanto dos voluntários quanto dos pesquisadores.
“De forma inédita, é o primeiro estudo que mostra que, ao longo do tempo, os pacientes que recebem a cannabis recuperam memória e ganham pontos na escala cognitiva, enquanto os pacientes com placebo seguem o declínio natural da doença”, afirma o professor Francisney do Nascimento, coordenador da pesquisa e líder do Laboratório de Cannabis e Psicodélicos (LCP) da Unila.
Um dos diferenciais do estudo, segundo os pesquisadores, foi a duração do tratamento: 26 semanas. Nascimento explica que pesquisas anteriores falharam por avaliarem os pacientes por períodos mais curtos ou por utilizarem doses inadequadas dos canabinóides. Ele destaca ainda o chamado “efeito da esperança”, observado nas primeiras semanas.
“Até a décima segunda semana, tanto quem recebeu cannabis quanto quem recebeu placebo apresentou melhora. Isso ocorre porque o paciente e a família passam a se cuidar mais. Mas esse efeito não se sustenta ao longo do tempo”, explica. Após seis meses, segundo ele, os pacientes que receberam placebo apresentaram piora significativa nos testes cognitivos.
O estudo foi realizado em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) e a Johns Hopkins University School of Medicine, dos Estados Unidos.
Atualmente, existem quatro principais medicamentos utilizados no tratamento do Alzheimer, todos voltados principalmente para o alívio dos sintomas. “São medicamentos com eficácia muito limitada. Em muitos pacientes, não funcionam ou funcionam por pouco tempo, enquanto a doença continua progredindo”, avalia Nascimento.
Segundo o pesquisador, os pacientes seguem sendo acompanhados mesmo após o encerramento do período de testes, para avaliar os efeitos de longo prazo do tratamento.