Um caso clínico incomum chamou a atenção de pesquisadores ao apresentar uma possível relação entre endometriose e crises epilépticas. Uma mulher de 48 anos, que sofria convulsões exclusivamente durante o período menstrual, passou a ser investigada por médicos após exames identificarem uma alteração em uma região do cérebro relacionada à memória.
O episódio foi descrito em um artigo publicado em setembro de 2026 no Journal of Clinical Medicine, por pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, na Romênia.
A principal hipótese levantada pelos especialistas foi a possibilidade de endometriose cerebral, condição considerada extremamente rara.
Apesar da melhora da paciente após tratamento hormonal, os médicos ressaltam que não foi possível confirmar definitivamente o diagnóstico.
A paciente apresentou suas primeiras crises epilépticas em fevereiro de 2019, quando tinha 41 anos.
Durante os episódios, ela apresentava alterações da consciência, períodos em que permanecia com o olhar fixo e dificuldades para recordar acontecimentos recentes.
Após as crises, também relatava confusão e problemas temporários de memória.
Inicialmente, não havia uma explicação clara para os sintomas.
Ao longo da investigação, a mulher começou a registrar as datas das crises e dos períodos menstruais.
Depois de seis meses de acompanhamento, os médicos identificaram que os episódios ocorriam exclusivamente durante a menstruação.
Essa relação levou os especialistas a considerar a influência das oscilações hormonais sobre a atividade cerebral.
A primeira ressonância magnética, realizada em agosto de 2019, revelou uma lesão no hipocampo direito.
Essa região do cérebro desempenha funções importantes relacionadas à formação de memórias e também pode estar envolvida na ocorrência de crises epilépticas.
Em exames posteriores, foi identificada uma alteração de aproximadamente 11 por 10 milímetros.
Os médicos avaliaram diferentes possibilidades para explicar a lesão, incluindo processos inflamatórios, alterações do desenvolvimento e outras condições neurológicas.
A associação entre a localização da lesão e o padrão menstrual das convulsões levou à investigação de uma possível manifestação cerebral de endometriose.
A endometriose é uma doença caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio, que reveste a parte interna do útero, em regiões fora de sua localização habitual.
A condição acomete principalmente estruturas da pelve, podendo provocar dores menstruais intensas, desconforto pélvico e outros sintomas.
Entretanto, manifestações fora da região pélvica também podem ocorrer.
A presença de tecido semelhante ao endometrial no sistema nervoso central é considerada excepcionalmente rara.
Na revisão científica realizada pelos pesquisadores, foram identificados apenas oito relatos anteriores de possível endometriose cerebral.
O número reduzido de registros demonstra o quanto essa manifestação ainda é pouco compreendida.
A ocorrência de convulsões em determinados períodos do ciclo menstrual é conhecida na medicina como epilepsia catamenial.
Essa condição está relacionada à influência das oscilações hormonais sobre a atividade elétrica cerebral.
As crises podem se intensificar em determinadas fases do ciclo, especialmente quando ocorrem mudanças nas concentrações de estrogênio e progesterona.
Entretanto, apresentar convulsões durante a menstruação não significa necessariamente ter endometriose cerebral.
A epilepsia catamenial possui diferentes mecanismos e pode ocorrer sem qualquer presença de tecido endometrial no cérebro.
No caso analisado, a existência de uma lesão cerebral associada às crises levou os médicos a investigar uma explicação menos comum.
Inicialmente, a paciente recebeu medicamentos utilizados no controle de crises epilépticas, mas continuou apresentando sintomas.
Posteriormente, em 2021, os especialistas iniciaram um tratamento hormonal com medicamentos à base de progestágenos, incluindo desogestrel e dienogeste.
Após o início da terapia, as convulsões desapareceram.
O acompanhamento permitiu a suspensão dos medicamentos antiepilépticos, sob supervisão médica.
Em março de 2026, uma nova ressonância magnética mostrou redução acentuada ou desaparecimento da alteração anteriormente identificada no hipocampo.
Os pesquisadores consideraram essa evolução compatível com a hipótese de endometriose cerebral.
Mesmo com a resposta favorável ao tratamento, os especialistas não conseguiram confirmar a presença de tecido endometrial no cérebro.
A confirmação exigiria a análise de uma amostra retirada da lesão.
Entretanto, uma biópsia foi considerada arriscada devido à localização no hipocampo, região relacionada a funções neurológicas importantes.
Diante desse risco, os médicos optaram pelo acompanhamento clínico e por exames de imagem.
Os pesquisadores ressaltam que outras explicações ainda são possíveis.
A regressão da lesão e o desaparecimento das convulsões fortalecem a hipótese investigada, mas não constituem prova definitiva.
O relato científico destaca a importância de observar padrões temporais em sintomas neurológicos.
O registro das crises permitiu identificar uma relação que não havia sido percebida inicialmente.
Essa informação contribuiu para direcionar a investigação e avaliar possibilidades terapêuticas.
Os autores também ressaltam a necessidade de atuação conjunta entre diferentes especialidades, como neurologia e ginecologia, quando existem sintomas relacionados às oscilações hormonais.
Entretanto, o caso é excepcional e não permite concluir que a endometriose cerebral seja uma causa frequente de convulsões.
A publicação contribui para o estudo de manifestações incomuns da endometriose e reforça a importância de investigar adequadamente crises epilépticas sem causa esclarecida.
O caso também demonstra os desafios do diagnóstico quando a confirmação por biópsia apresenta riscos significativos.
Embora a evolução clínica tenha sido favorável, os pesquisadores destacam a necessidade de cautela na interpretação dos resultados.
Pessoas que apresentam convulsões, especialmente pela primeira vez, devem procurar avaliação médica. O tratamento hormonal relatado no estudo não deve ser utilizado por conta própria.